As últimas décadas de estudos sobre doenças emergentes indicam que o número oficial de pessoas infectadas pelo novo coronavírus oriundo da China é apenas a ponta do iceberg. É muito provável que casos relativamente leves da doença, ou mesmo pacientes sem sintomas, sejam responsáveis, em parte, pelo avanço do vírus, dizem especialistas.

Trata-se, portanto, de uma boa e uma má notícia ao mesmo tempo. O novo patógeno deve ser, na verdade, menos letal do que os números sugeriram até agora, mas também pode ter se espalhado com mais facilidade.

“Todo quadro traçado numa hora como esta tende a subestimar o total de infectados, porque primeiro você só enxerga os casos mais graves”, diz o infectologista Esper Kallás, da Faculdade de Medicina da USP.

“E duas outras coisas também podem interferir nesse momento de ascensão dos casos: o comportamento das pessoas uma vez que o surto é identificado e a diminuição progressiva do número dos que ainda são suscetíveis ao vírus na população. Se você não quer correr riscos de ser infectado pelo vírus da zika, o melhor lugar é Pernambuco, porque quase todo mundo já teve a doença e ficou imune”, compara Kallás.

Conforme lembra o imunologista Stanley Perlman, da Universidade de Iowa (EUA), em editorial na revista especializada The New England Journal of Medicine, membros do grupo do coronavírus “aprenderam” a infectar humanos ao menos três vezes desde o começo do século 21, com diferentes graus de sucesso. Todos eles parecem ter vindo de mamíferos silvestres ou domésticos.

Primeiro foi o vírus da Sars (sigla inglesa de “síndrome respiratória aguda grave”), a partir de 2002, cujos hospedeiros não humanos provavelmente eram morcegos e civetas (pequenos carnívoros asiáticos).

Em 2012, foi a vez do causador da Mers (“síndrome respiratória do Oriente Médio”), que teria saltado dos camelos para os seres humanos na Arábia Saudita. O novo coronavírus, cujo material genético tem 80% de similaridade com o da Sars, também é muito semelhante a certos vírus de morcegos, embora possa ter passado por outros animais antes de chegar a pessoas.

“O Sars acabou desaparecendo depois do surto inicial. Já o Mers tem voltado várias vezes, em surtos mais isolados. Dos três, o novo coronavírus parece ter conseguido uma capacidade maior de sustentar a transmissão entre seres humanos”, diz o virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP).

Embora os três parasitas causem infecções respiratórias que podem ser transmitidas por gotículas da respiração, há indícios de que eles não se comportam de forma exatamente igual no organismo dos doentes, segundo Nogueira.

Enquanto o Sars e o Mers atacam preferencialmente o trato respiratório inferior (bronquíolos e alvéolos, no pulmão), os dados publicados até agora sugerem que o novo vírus tende a afetar mais laringe, faringe e traqueia, o trato respiratório superior. Se isso for confirmado, o fato tem, de novo, tanto um lado bom quanto outro mais preocupante. A comparação com duas formas do vírus da gripe que também causaram problemas mundo afora em décadas recentes ajuda a entender o porquê, diz o virologista.

“De um lado, a gente teve o H5N1, o da gripe aviária, que causou preocupação, mas acabou produzindo um número restrito de casos graves. Esse era um vírus que afetava mais o trato respiratório inferior. Já o H1N1, da gripe suína, que afetava mais o trator superior, apareceu no México e acabou dando a volta ao mundo.”

No segundo caso, a tendência é que os sintomas sejam relativamente mais suaves em média, mas o número absoluto de pessoas afetadas é bem mais alto, o que significa que haverá um número absoluto também elevado de casos graves e mortes, ainda que, para cada paciente individual, o risco de que isso aconteça seja menor do que durante o surto da Sars, por exemplo.

Boa parte do que pode acontecer depende do que os especialistas chamam de N0 (também escrito N0), número que representa quantas novas pessoas, em média, são infectadas por cada doente. As estimativas feitas até agora para o novo coronavírus por grupos como o de Neil Ferguson, do Imperial College de Londres, ficam numa faixa de N0 que vai de 1,5 a 3,5.

Alguns vírus comuns, como o sarampo, espalham-se com muito mais facilidade (com N0 próximo de 20). Mas a faixa estimada para o coronavírus se equipara à dos vírus da gripe e provavelmente supera o vírus da dengue, cujo número nunca chega a 2.

Embora a situação seja grave e inspire cuidados, Nogueira diz que é importante enxergá-la numa perspectiva mais ampla no Brasil. “É bem provável que os casos de dengue explodam neste ano no país. No caso do coronavírus, se houver transmissão sustentada aqui, ela pode acabar coincidindo com a temporada anual de influenza [gripe]. Não podemos esquecer outras situações importantes e pensar apenas nos riscos do coronavírus.”

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Aldenice Santos

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