A principal suspeita é de que tenha sido uma contaminação oral, mas médicos e autoridades de saúde ainda não conseguiram identificar o tipo de alimento que estaria envolvido no surto de Ibimirim

Uma menina de 2 anos chamada Berenice foi a primeira paciente da história diagnosticada com a doença de Chagas, em plena fase aguda (surge logo após a infecção) da doença, no município de Lassance (MG).

Desde então, passaram-se 110 anos e o problema permanece negligenciado. O reflexo vem do primeiro surto de Chagas de Pernambuco (e possivelmente o maior do Brasil), segundo alegam médicos e especialistas que investigam uma microepidemia decorrente da cidade de Ibimirim, no Sertão do Estado, que reforça o alerta para uma nova realidade de enfrentamento: o consumo de alimentos contaminados com parasitos considerado atualmente a principal forma de transmissão da doença, que afeta 2 milhões de brasileiros.

“A principal suspeita é de que tenha sido uma contaminação oral, mas ainda não conseguimos identificar que tipo de alimento”, informou o chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Demetrius Montenegro, que acompanha os pacientes expostos ao surto. “Foram 77 pessoas possivelmente atingidas, com 25 casos confirmados. Desses, 20 tiveram o parasita identificado em exame laboratorial. Entre as que têm sintomas, oito estão em acompanhamento no hospital.” Todas participaram de evento religioso em Ibimirim, na Semana Santa. A primeira notificação da doença, contudo, chegou à Secretaria Estadual de Saúde (SES) no último dia 20, já que inicialmente os médicos não suspeitaram de Chagas.

Independentemente de apresentarem sinais clínicos da doença, todo o grupo exposto ao surto está em investigação, inclusive as pessoas que tiveram exames negativos, já que essa característica não afasta a possibilidade de contaminação. As pessoas desse surto atual encontram-se na fase aguda (inicial) da doença, diferentemente dos registros anteriores em Pernambuco, com formas sintomáticas e crônicas, incluindo problemas cardíacos e problemas digestivos. Para o cardiologista Wilson Oliveira, coordenador da Casa de Chagas (no bairro de Santo Amaro, área central do Recife), por terem sido diagnosticados na fase aguda, os pacientes contaminados têm mais chances de terem a doença controlada, em comparação com aqueles que tiveram a enfermidade detectada anos após a infecção.

“A perspectiva de cura é maior, mas são pessoas que precisam ser acompanhadas por toda a vida. O tratamento tem como objetivo fazer com que a doença não evolua para a cardiopatia crônica ou eventualmente para uma alteração digestiva”, esclareceu. Segundo o médico, cerca de dez novas pessoas (na fase crônica da doença) procuram apoio, a cada mês, na unidade, que tem atualmente 2 mil pacientes cadastrados.