O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 1,1% em 2018, repetindo o mesmo desempenho de 2017. O resultado confirmou que a economia continua em marcha lenta e provocou uma nova revisão das estimativas dos analistas para a economia em 2019. Crescem as apostas de expansão de 2% neste ano, patamar abaixo da última previsão do mercado financeiro, de 2,48%. Tanto o consumo das famílias quanto os investimentos e a atividade industrial tiveram desempenhos fracos.

Os analistas ouvidos pelo Correio admitem a possibilidade de novos cortes, ao longo do ano, nas estimativas de crescimento econômico para 2019. O consenso é de que a expansão do PIB dependerá do ritmo da nova reforma da Previdência, que prevê uma economia de R$ 1,1 trilhão em 10 anos nas contas públicas. Quanto mais tempo demorar para que ela seja aprovada, menor será o crescimento do país. As projeções consideram que alguma reforma será aprovada este ano, caso contrário, o país mergulhará em uma nova recessão, de acordo os entrevistados. 

“Sem a Nova Previdência, o crescimento do PIB ficará abaixo de 1% este ano, mas, se ela for aprovada, a economia poderá avançar 2,9%”, afirmou o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida. A secretaria divulgou nota, ontem, mostrando que o país cresceu 0,5% ao ano entre 2011 e 2018, menos do que taxa média anual da “década perdida” de 1980, de 1,6%. Além disso, o PIB per capita, de R$ 32,7 mil do ano passado, ficou 8% abaixo do nível de R$ 36,5 mil registrado em 2014, antes do início da recessão. Sem a reforma, poderá chegar a R$ 30,8 mil em 2023. “A Nova Previdência é condição necessária para o equilíbrio fiscal de longo prazo da economia, melhorando o ambiente de investimento e evitando uma nova década perdida”, afirma o documento.

Demanda fraca

A economista Sílvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), ressaltou que a atividade vem tendo dificuldade para se recuperar da crise por conta de problemas estruturais do país e da demanda fraca. “A velocidade de crescimento deixa muito a desejar e o ritmo mais forte de retomada dependerá do avanço da reforma da Previdência. Além disso, temos um problema de demanda interna, que vem desde a recessão de 2015 e 2016”, destacou ela.

Pelas contas de Silvia, o país vai demorar para recuperar a perda acumulada nos 11 trimestres seguidos de recessão. Ela estima que a queda do PIB, nesse período, chegou a 8,2% e, se depender do ritmo de carregamento do PIB de 2018, de apenas 0,4%, será difícil ver um ritmo mais forte nos próximos anos. “Contando trimestre a trimestre, a retomada chega a 3,4% até o ano passado, mas ainda falta recuperar quase 5% do que perdemos em termos do PIB. Agora, com o cenário externo desacelerando, o desafio para voltar a crescer e atrair investidores será grande, principalmente, se não houver reforma”, pontuou.

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, lembrou que, se a reforma for muito desidratada, para algo inferior 70% dos ganhos previstos inicialmente, a retomada da economia e da confiança dos investidores será comprometida. Ela manteve a projeção de crescimento de 2% para este ano. “A gente espera uma recuperação do mercado de trabalho e do crédito. A premissa central é a reforma Previdência. Com ela avançando, o investimento poderá crescer 5,5% neste ano”, apostou.

Os analistas iniciaram o ano com previsões de crescimento do PIB em 3%, mas elas foram reduzidas após a greve dos caminhoneiros, em maio. “A greve antecipou as incertezas que estavam previstas para o segundo semestre com as eleições. O ritmo de crescimento enfraqueceu a partir do segundo trimestre. Neste ano, uma expansão acima de 2% dependerá da aprovação da reforma da Previdência”, pontuou o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo de Souza Júnior.

A gerente de Contas Trimestrais do IBGE, Cláudia Dionísio, explicou que a frustração do PIB começou desde o início do ano, quando os resultados setoriais esperados não foram atingidos, mas foi agravada com a greve. “O consumo das famílias, que foi o carro-chefe da demanda, veio positivo, mas não está nem perto dos patamares pré-crise. O mercado de trabalho melhorou, mas de forma lenta e informal. A massa salarial subiu, só que com no emprego sem carteira assinada e na subutilização da mão de obra”, destacou. Cláudia ressaltou também que, apesar de a taxa Selic estar em 6,5% ao ano, o menor nível da história, o spread bancário ainda é elevado. “(Os bancos) não repassam totalmente a queda da taxa básica, o que limita a expansão do crédito e do crescimento”, ressaltou.

Efeito Bolsonaro

Na avaliação do economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, o resultado fraco do último trimestre de 2018, quando o PIB cresceu apenas 0,1% em relação aos três meses anteriores, confirmou que a vitória do presidente Jair Bolsonaro não surtiu efeito na economia real. “A recuperação continuará fraca nos próximos trimestres. Os dados do PIB vão desapontar quem esperava que a eleição de Bolsonaro daria um impulso imediato à economia. Embora a confiança tenha crescido, a atividade permanece fraca”, explicou ele, reforçando que o crescimento neste ano ficará abaixo do consenso do mercado, em torno de 2%.

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Dena Santos

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