“Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, revela bastidores da aliança entre líderes evangélicos e o bolsonarismo; Malafaia abandonou sessão aos gritos
O novo documentário da cineasta Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos”, provocou forte reação do pastor Silas Malafaia, um dos protagonistas do longa. Convidado para uma sessão especial realizada na última quinta-feira, Malafaia deixou a sala de cinema visivelmente alterado, aos berros — incomodado, ao que tudo indica, com a própria imagem retratada nas telas.
O filme investiga a ascensão da influência política de líderes evangélicos no Brasil na última década, com destaque para o papel de pastores fundamentalistas na construção do bolsonarismo. Em destaque, a figura de Malafaia, que passou a usar o púlpito como palanque político, apoiando diferentes candidatos ao longo dos anos até selar uma aliança direta com Jair Bolsonaro em 2018.
Com cenas contundentes e depoimentos registrados ao longo dos últimos anos, o documentário mostra o pastor exaltando Bolsonaro em sua igreja logo após a vitória nas urnas e utilizando versículos bíblicos para justificar o novo tipo de liderança que surgia no país. “Deus escolheu as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis”, prega Malafaia, em uma fala replicada pela diretora para ilustrar a guinada política e ideológica do Brasil.
A obra também revela momentos de bastidores, como as ameaças feitas a senadores que resistiram à indicação de André Mendonça ao STF, e os ataques prometidos a pastores que se aproximaram do presidente Lula em 2022. Em uma cena impactante, o pastor afirma: “Aqui a gente destrói os caras”.
Petra Costa ainda aborda a teologia da prosperidade como elemento central da trajetória de Malafaia, mostrando sua ascensão de líder de igreja periférica a dono de um império religioso e empresarial. O pastor surge dirigindo uma BMW blindada e voando em um jatinho batizado de “Favor de Deus”.
Apesar de se apresentar como profeta, o pastor erra previsões políticas: afirmou com convicção que Lula não venceria as eleições de 2022, o que não se concretizou. Após a derrota, passou a defender abertamente a convocação das Forças Armadas, mas curiosamente não foi incluído na lista de denunciados da PGR por tentativa de golpe.
“Apocalipse nos Trópicos” estreia num momento de reavaliação sobre o papel das lideranças religiosas na democracia brasileira e escancara os mecanismos de poder que operam nos bastidores da fé e da política.



